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Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa
| Santa Teresa – Rio de Janeiro |
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Breve história do Hotel Santa Thereza
Corria o século XVIII. O ano era de 1750, e as irmãs Jacinta e Francisca Rodrigues Ayres realizavam um sonho, o de montar o primeiro convento feminino no Rio de Janeiro, então uma capitania do Brasil colonial. O governador Gomes Freire de Andrade havia lhes cedido uma chácara no Morro do Desterro, para que devotassem o convento à sua santa preferida, Santa Tereza D´Ávila. A pedra fundamental do convento foi lançada a 24 de junho de 1750, mas as obras duraram até mais de dez anos depois. No dia 24 de outubro de 1750, quatro meses depois da pedra fundamental, uma grande cerimônia foi realizada na frente do convento, com tropas desfilando, salvas de tiros e bençãos religiosas. Estava se fixando neste dia, sem que ninguém atentasse para isso, a data de aniversário do bairro que ali nascia: Santa Tereza.
De lá para cá, episódios importantes fizeram do morro um bairro habitado. Crucial para o processo de ocupação do bairro foi o surto de cólera que não pegava em Santa Tereza, simplesmente por não haver condições de manter água parada num morro. Outro fator de habitação muito importante foi a inauguração de bondes a vapor, que só subiam uma ladeira de acesso ao bairro, em meados do século XIX. O aqueduto da carioca, hoje conhecido como os Arcos da Lapa, já estava no lugar desde 1726, e passou a servir de viaduto para bondes elétricos em 1896.
No século XIX, os bondes passaram a fazer parte da paisagem do bairro. Os Arcos da Lapa tornaram-se seus viadutos.
Até os anos de 1940, a Lapa era o ponto de encontro de boa parte da classe artística carioca. Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Mario de Andrade (quando vinha ao Rio), Oscar Niemeyer e vários outros se reuniam nas sinucas da Lapa, onde viravam noites bebendo e jogando. Quando o Estado Novo é decretado, a área da Lapa fica muito perigosa para estes que eram considerados subversivos, uns mais que outros. Assim, a perseguição política arrastou uma parte da intelectualidade carioca para a então distante e isolada Ipanema. A outra parte preferiu subir o morro ao lado, Santa Tereza, e viver por ali mesmo.
A esta altura, o bairro de Santa Tereza já era considerado um foco de produção artística e cultural devido aos saraus e rodas de poesia organizados pelos grandes agitadores culturais que o bairro teve, como Paschoal Carlos Magno e Laurinda Santos Lobo. Tornava-se uma conseqüência natural, portanto, o incremento dessa vocação. Nos anos seguintes, o bairro foi um pouco ofuscado em matéria de referência cultural. Ipanema e Copacabana viviam seus momentos de apogeu, com a Bossa Nova, o neo-concretismo e, mais tarde, a poesia marginal. Nos anos 70, Santa Tereza passou silenciosamente a conviver com uma atividade que só agora, no ano 2000, viria a ser revelada: as freiras carmelitas, herdeiras de Jacinta e Francisca Rodrigues Ayres, refugiaram perseguidos políticos da ditadura em seus muros de claustro.
Nos anos 90, a decadência tomava conta do bairro, quando um trabalho comunitário, bem ao espírito que sempre havia tomado conta do bairro, sacudiu a poeira das ruas de Santa Tereza. Uma ONG foi fundada e realizou de novo eventos artísticos, primeiro com os artistas residentes, que não são poucos, e depois abrindo a quem quisesse participar. O Arte de Portas Abertas e o Festival de Inverno são exemplos de como a auto-estima do bairro foi recuperada. Ambos movimentaram o comércio e restabeleceram a vocação do bairro para a cultura. Hoje, o Rio vê em Santa Tereza um local onde encontrar tranqüilidade e contemplação, longe do ritmo alucinante da cidade.
Fonte: http://www.centrodacidade.com.br
* João Chagas, em 1897
Um caminho de ferro de cremalheira, lançado da base ao mais alto cume da montanha a que chamam Corcovado por indicar, no seu píncaro, uma ligeira corcova, trepa com velocidade por uma rampa, a princípio suave, levando consigo, na carreira, galhos de árvore com folhas porque tudo em volta é mato.
A meia derrota, pára num apeadeiro rústico, recebe e larga gente, continua a subir, de novo se embrenha no matagal, levantando, ao passar, bandos de passarada e, súbito, aparece-nos marinhando a uma prodigiosa altura pelo resvaladoiro escalvado do monte na luz e na ventania do espaço.
Olha-se para baixo com pasmo e medo e, confusamente, vê-se a terra, o oceano, lagunas, bosques e, como numa planta, a cidade. A carruagem arqueja, dir-se-ia que caminhamos verticalmente para cima e passa-nos, então, de repente, pelo espírito, a idéia de que essa audaciosa caranguejola se vai despenhar.
Em cima, sob um amplo quiosque de ferro, todo vibrante, um homem triste, por detrás de um balcão, vende cerveja – nas nuvens. Dum terraço, contempla-se, então, o panorama e posso assegurar que poucas vezes se verá causa tão grandiosa e tão bela.
Não é o panorama de uma cidade, vista de cima, como de um outeiro. É melhor; é o panorama da Terra, da própria crusta da Terra. Qualquer coisa de informe e de amorfo, qualquer coisa de vagamente monstruoso e confuso – a natureza da Bíblia, como depois do Dilúvio.
A meio caminho da montanha, pára-se a almoçar ou merendar no Hotel das Paineiras e, enquanto se faz horas para regressar à cidade, percorre-se a vereda de um velho aqueduto, no meio de uma vegetação esmagadora.
A excursão ao Corcovado tem isto de belo – o permitir, ao homem que a fez, conceber a Terra tal como ela foi criada, ter uma visão do Cosmos, apoderar-se num só olhar do admirável equilíbrio e da augusta majestade da Natureza.
* João Pinheiro
Chagas nasceu no Rio em 1º de setembro de 1863, filho de um emigrante
português. Estudou em Lisboa, tornando-se jornalista, escritor, crítico
literário, político, diplomata e conspirador. Por ocasião
do ultimato britânico de 1890, adere ao Partido Republicano Português,
sendo implicado na revolta de 31 de Janeiro de 1891. Foi degredado para Angola,
fugiu para o Brasil e continuou a lutar pela causa republicana.
Foi um dos mais ativos oponentes da ditadura de João Franco entre 1906
e 1908. Com o triunfo da República em 1910, João Chagas foi
nomeado representante diplomático português em Paris, cargo do
qual se demitiu em duas ocasiões por discordar do modelo político
seguido pelos governantes. Foi primeiro-ministro (chefe de governo) de 3 de
Setembro a 12 de Novembro de 1911. Morreu no Estoril em 28 de Maio de 1925.
Outrora, nos
verões de 1966 e 1967, chuvas torrenciais em Santa Teresa provocaram
vários e fortes deslizamentos nas encostas, destruíram muros,
ruas e muitos prédios, houve grande perda de vidas, com conseqüências
amplas e graves. No começo dos anos 70, nos casarões surgiram
repúblicas de estudantes, artistas e grupos de novos moradores. Santa
Teresa recomeçava. As condições do casario eram precárias.
O bondinho, embora melhor que hoje, já apresentava a tendência
ao abandono.
Em 1978, os moradores fundaram a AMAST baseados na luta coletiva e organizada
pela preservação do Bondinho e do nosso patrimônio histórico,
urbanístico, arquitetônico, social e ambiental. Em 1984, é
aprovada a Área de Proteção Ambiental (Apa) com o Decreto
5050, em 1985, que consagra o bairro residencial, garante e incentiva a preservação
e restringe os impactos da exploração comercial. Em 1986, o
Sistema de Bondes é tombado pelo Conselho Estadual do Patrimônio
Histórico Artístico e Cultural, por ação da AMAST
junto ao INEPAC. De 1989 a 1991, são elaborados e aprovados a Lei Orgânica
e o Plano Diretor da cidade que consagram o Direito de Vizinhança,
obrigam Estudos e Relatórios de Impacto Ambiental e estabelecem nas
Audiências Públicas as maneiras decisórias de participação
popular.
Atualmente a AMAST lidera mobilizações e gestões dos
moradores; vários movimentos já começaram; muitos são
ainda urgentes... Junto ao governo federal há alguns processos, entre
eles, o tombamento do Sistema de Bondes pelo IPHAN – Ministério
da Cultura. Há obras irregulares e ilegais ocorrendo em Santa Teresa,
burlando a APA e o Decreto 5050; imóveis preservados foram derrubados...
O responsável vê muito pouco, alega faltar gente, carros... O
caso do Hotel de Santa Teresa é um triste exemplo onde se destrói
sem licença e sem que os moradores opinem. A luta de então foi
proteger e revitalizar, sem nunca desfigurar história e sociedade.
Hoje ainda aprendemos com a memória, a AMAST é essencial na
nossa luta sempre coletiva e organizada.
A Companhia Ferro-Carril de Santa Teresa
(Companhia Ferro-Carril Carioca)
Considerado
o bairro ideal para intelectuais e artistas, Santa Teresa parece ter parado
no tempo, mantendo há dezenas de anos o aspecto do Rio antigo. As ruas
estreitas e sinuosas por onde ainda passam os bondes, único remanescente
que ainda circulam no Brasil, são um motivo de atração,
não só para turistas como também para atual geração
que vive em outras localidades.
Por ocasião da fundação da Cidade do Rio de Janeiro (séc.XVI),
a região conhecida como Santa Teresa era ocupada pelos índios
Tamoios, que usufruíam as águas do rio que atravessava suas
terras – o Carioca.
O bairro de Santa Teresa deve seu nome à invocação da
excelsa mística e reformadora do Carmelo, Santa Teresa de Jesus, nascida
na legendária cidade de Ávila no coração da Espanha.
Tudo o que existe e que se sabe sobre Santa Teresa é um pouco da própria
História do Rio, mas para o visitante parece um local à parte,
com suas características próprias. Localizado na Serra da Carioca,
antes de ter o atual nome, foi conhecido no século XVII como Morro
do Desterro, porque um dos de seus primeiros moradores, Antônio Gomes
do Desterro, mandou edificar nele uma pequena ermida.
No ano de 1715, a jovem Jacinta Rodrigues Aires, de conceituada família
radicada no Matacavalos, atual Rua do Riachuelo, desde cedo identificou em
si a vocação religiosa, e freqüentemente ia rezar na pequenina
capela do Morro. Jacinta era devota de Santa Teresa de Jesus, e tempos depois,
com a ajuda de particulares, decidiu que fundaria uma instituição
para abrigar outras jovens com a mesma vocação. O governador
de então, Gomes Freire Andrade, motivado pela obstinação
de Jacinta, decidiu por mandar construir um convento que passou a ser o de
Santa Teresa de Jesus, razão pela qual Santa Teresa passou a ser a
nova designação do bairro, em substituição ao
nome de Morro do Desterro. Logo o recanto passou a despertar o interesse principalmente
das famílias de melhores recursos financeiros, já que poderiam
desfrutar de um clima excepcional.
A partir do séc.XVIII, começa a luta pelo abastecimento de água
da cidade e a captação do Rio Carioca tornou-se prioridade.
No final do séc. (1750) o aqueduto da Carioca construído pelo
Conde de Bobadela (sua construção foi iniciada em 1744) para
que pudesse haver uma ligação viável para as águas
que abasteciam parte do centro da cidade, dando origem aos Arcos da Lapa,
considerada a obra pública mais monumental do período da Colônia.
As águas vinham do Rio Carioca, que nasce das Paineiras, na chamada
Lagoa dos Porcos e iam até o largo no centro da cidade, que por influência
do rio, chamou-se Largo da Carioca. Em 1896, isto é, 146 anos depois
de ser construído, o aqueduto foi desativado como tal.
No início do séc.XIX, com a chegada da Família Real e
com a abertura dos portos, a região começa a receber ilustres
moradores, famílias de diplomatas estrangeiros e, gradualmente, ocorre
uma implantação de grandes chácaras em todo o bairro,
que chegou a ser conhecido como “Estação de Repouso do
Rio”. O acesso ao morro recebeu melhoria considerável com a implantação
de um Plano Inclinado (1877) a partir da Rua do Riachuelo (antiga Mata Cavalos).
No alto, a ligação dos principais pontos, Curvelo e França,
se fez através de bondes puxados a burro.
Em 1872, os Eng.º Januário Cândido de Oliveira e Eugênio
Batista de Oliveira obtém através do Decreto n.º 5.126
de 30 de outubro, o privilégio por 16 anos para a construção,
uso e gozo, de uma linha de carris de ferro para os morros de Santa Teresa
e Paula Matos. Seu traçado seria este: "Na cidade seguiria os
Largos do Moura, Batalha e Misericórdia, praia e Rua de Santa Luzia,
rua da Ajuda, Largo da Lapa, ruas das Mangueiras e, Riachuelo, Rezende e Arcos;
nas montanhas Largo do Guimarães, Caixa d'Água, pelas Ruas do
Aqueduto e largo dos Neves pelas Ruas Áurea, do Oriente e Progresso".
A linha das montanhas começaria na Rua do Riachuelo. A entrevia seria
de 1,2 m e sempre que fosse possível, os trilhos seriam assentados
no centro das ruas e nas mais estreitas, em qualquer lado. A superfície
dos trilhos deverá ficar sempre no mesmo nível da calçada
de modo não dificulte a livre circulação dos veículos
e animais, quer longitudinalmente, quer transversalmente. A largura dos carros
não excederá 1,6 m medida exteriormente e o máximo comprimento
será de 4,3 m entre as extremidades mais salientes da plataforma: Quanto
ao horário era previsto um movimento constante e regular desde às
5 horas da manhã até a meia-noite, sendo o número de
carros suficientes para o serviço da linha a juízo do Ministério
da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. A empresa será
porém obrigada a prolongar as horas de serviço, durante à
noite, sempre que, por motivo de alguma festividade, ou divertimento público,
a afluência de passageiros exigir.
Em 1874 se achavam terminadas as obras na cidade e se esperava para breve
o começo dos serviços no morro de Santa Tereza, onde era prevista
para a ascensão da tração a vapor, por meio de máquina
fixa.
Em 13 de março de 1877 foi inaugurado o plano inclinado, com 513,3
m de extensão. Seu declive era de 0,15% em 377,6 m; 0,16% em 56,6 m.
A linha de carris na parte plana da cidade, com a extensão de 7 km
das linhas de Santa Luzia, Lapa e Riachuelo, foram em 1878 integradas à
Companhia de Carris Urbanos, continuando a da parte alta sob a responsabilidade
da Cia. Ferro-Carril Carioca. No plano inclinado trabalhavam dois carros,
com lotação de 28 passageiros cada um. No alto do elevador,
funcionavam os pequenos bondes a burro, que subiam vagarosamente as íngremes
ladeiras até Paulo Matos, e na volta desciam sem os "motores"
só com a ajuda das declividades.
Em fins do século XIX, a Carril Carioca lança dois arrojados
projetos: 1º - Eletrificação das linhas e 2º - Ligação
dos morros Santa Tereza e Santo Antônio, passando os bondes sobre os
Arcos. Deveu-se esses empreendimentos a Eduardo Augusto de Souza Santos, presidente
da companhia. A inauguração desses dois melhoramentos se deu
no dia 1º de setembro de 1896, sob grande regozijo popular. (O material
elétrico foi fornecido pela General Eletric Co. e o material rodante
de S. Louis Car Co.)
O plano inclinado funcionou ainda até 1900, quando foi suspenso o serviço.
Alguns anos depois, em 1906, foi restabelecido o tráfego, funcionando
até 1926, quando foi definitivamente suspenso.
O belo passeio, atravessando sobre os arcos do antigo Aqueduto, a uma altura
de quase 20 m era excitante e inclusive até hoje é uma das atrações
da cidade do Rio de Janeiro. Em 1900, os bondes partiam do Largo da Carioca,
de 20 em 20 minutos.
Por contrato de 12 de novembro de 1903, a Companhia iniciou os trabalhos para
o prolongamento de suas linhas até o Alto da Boa Vista na Tijuca, passando
por Sumaré. Em 9 de novembro de 1906, foi inaugurada a estação
de Sumaré, no km 5 a partir do França. Conforme diz o relatório
de 1907, "o tráfego de bondes na linha vai sendo feito com algumas
dificuldades, pela insuficiência de energia elétrica para o serviço
desse trecho, que contém rampas continuas de 7%. Por motivo de desavença
entre a companhia construtora e a concessionária, em 1907 o tráfego
foi paralisado e nada mais foi feito para reativar o serviço.
Em 1928 foi construída uma linha pela Rua Francisco Muratori, que estabelecia
também uma ligação entre a parte baixa da cidade e as
linhas do morro de Santa Tereza, quando então foi paralisado o serviço
do elevador. Essa linha da rua Francisco Muratori esteve em tráfego
até 1966, quando foi desativada.
Em abril de 1926 a Companhia Ferro-Carril Carioca adquire cinco novos bondes
de fabricação belga, dos estabelecimentos Dyle & Bacalan,
e forma montados em suas oficinas. A Cia. iria construir carros reboques por
estes modelos. Entraram em tráfego no mês seguinte.
O contrato com a Prefeitura caducaria em 18 de dezembro de 1965, quando seria
efetuada a reversão, sem indenização, de todo o material
fixo e rodante. Mas antes disso, em 1963, a companhia entregava os serviços
à prefeitura do então Estado da Guanabara. O Governador Carlos
Lacerda estava nessa época, travando verdadeira batalha contra os bondes
no Rio e tentou também extinguir os serviços da Ferro-Carril
Carioca, inclusive projetando demolir os Arcos da Carioca. Foi então
fundada a "Sociedade Amiga dos Bondinhos de Santa Tereza" sob a
administração de Elza Pinho Osborne, que conseguiu salvar da
sanha de destruição, esse patrimônio que são os
bondes de Santa Teresa.
Em 1951 eram as seguintes linhas que a Cia. trabalhava: Silvestre - Largo
da Carioca, Santo Antônio, Viaduto Joaquim Murtinho, Rua Almirante Alexandrino
até estação Silvestre (EF Corcovado). Paula Matos - largo
da Carioca, Santo Antônio, viaduto Joaquim Murtinho, rua Almirante Alexandrino,
Mauá, Monte Alegre, Oriente, Progresso, largo das Neves e Paula Matos;
França - Largo da Carioca, Santo Antônio, Viaduto Joaquim Murtinho,
rua Almirante Alexandrino, largo França; largo Carioca até a
rua Almirante Alexandrino.
Em janeiro de 1975 foi inaugurada a nova estação dos bondes,
agora sobre o teto do estacionamento dos automóveis da empresa Petrobrás,
na Avenida República do Chile. Em 1966, em virtude de deslizamento
de terras provocado pelas fortes chuvas, a linha do Silvestre teve seu ponto
final em Dois Irmãos, e posteriormente ampliada até pequena
distância do Corpo de Bombeiros.
O sistema de bonde carioca foi extinto em 1964 (alguns dos modelos foram vendidos
aos museus norte-americanos, restando somente a ligação do centro
da cidade ao bairro de Santa Teresa, a qual é remanescente em todo
o país).
Ao longo do tempo, Santa Teresa chegou a ter em circulação mais
de 35 bondes, alguns com reboque. Em 1975, de um total de 28 veículos,
só funcionavam 18, com uma taxa de ocupação das mais
altas (69%) de toda a história da vida dos atuais bondinhos. No Rio
de Janeiro foi esta Companhia, a primeira empresa de carris a unificar o serviço
de tração elétrica em todas as suas linhas, numa extensão
total de 17,30km de linhas sendo 10,30km de linhas ativas, 1,50km de pátios
e desvios e 5,70km de linhas operacionais. Ao longo do séc.XX, com
o avanço da malha urbana, Santa Teresa tornou-se um bairro único
e especial no território do Município do Rio de Janeiro, com
uma feição urbanística e um acervo arquitetônico
que se destaca no panorama carioca.
Por essas qualidades, Santa Teresa foi objeto de legislação
especial – Lei n.º 495/84 – que transformou o bairro em Área
de Preservação Ambiental/APA, a primeira em todo Brasil. Como
decorrência, o Poder Executivo Municipal regulamentou a Lei e passou
a exercer a tutela através do DGPC/Departamento Geral do Patrimônio
Cultural da Secretaria Municipal de Cultura.
Através do decreto nº 28.848 de 18/06/2001, do Governo do Estado
do Rio de Janeiro, ocorreu a transferência da administração
dos serviços prestados pela Companhia de Transportes Coletivos –
CTC à Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística
– CENTRAL, contando com o sistema de bonde de Santa Teresa, hoje, com
extensão total de 17,3 km de linha, sendo 10,3 km de linhas ativas,
1,5 km de pátios e desvios e 5,7 km de linhas não operacionais.
Não poderíamos terminar sem uma saudosa referência aos
bondes cariocas, vendidos aos museus norte-americanos, em 1964. Dois deles
estão trafegando naquele país. São os de nº. 441
e 1719 da antiga "Companhia Ferro-Carril da Vila Izabel", com 10
bancos e 50 lugares, e 13 bancos e 65 lugares, respectivamente.
O primeiro estivera aqui em serviço desde 1909 e o segundo desde 1914.
Pertencem hoje, ao museu da extinta The Elgin, Aurora & Southern Traction
Company, que desde 1896 explorava o tráfego de bondes abertos (iguais
aos do Rio de Janeiro), nas cidades de Elgin e Aurora, no Estado de Illinois.
Em 1935, por imposição do progresso, o serviço cessou
e, quatro anos mais tarde, fundou-se o museu que tomou o mesmo nome da velha
companhia. Aos sábados e domingos alguns carros de diversas procedências
percorreram alguns trechos da antiga linha, transportando turistas e visitantes
do museu.
Aqueles nossos bondes chegaram ao cais do Lloyd Brasileiro, na Rua Trinta,
em Brooklyn, Nova York, no dia 7 de setembro de 1965. Juntamente com eles
desembarcaram do cargueiro "Lóide Honduras" mais onze, destinados
a outros museus nas cidades de Nyskayuna, no Estado de Nova York; Warehouse
Point, Connecticut; Glenwood, Oregon; e Orbisonia e Bloomsburg, no Estado
da Pensilvânia.
“Com esse carregamento - noticiou o New York Times - mais que duplicou
o número de bondes abertos nos vários museus americanos. Dois
carros ainda faltam vir do Brasil em outro navio. Os restantes de uma frota
de cerca de 800 - quase todos os fabricados na América do Norte, entre
os anos de 1903 e 1915 - foram escarpados".
Um museu de bondes em Connecticut e outro em Main já haviam, desde
1948, adquirido alguns carros da linha norte-americana de Yale Bownl; outro
museu, também, em Cleveland, conseguira dois carros na cidade de Vera
Cruz, no México, e o Trolley Park, em Glenwood, importara, não
fazia muito tempo, um desses veículos da Austrália.
De 1890 a 1920 esse tipo de bonde aberto, com os bancos envernizados, ferragens
de latão, estribos corridos, balaústres e cortinas para cada
banco no caso de chuva e sol, foi a última palavra em matéria
de estilo e conforto. A partir do final da década de 1920, porém,
começaram a escassear. É verdade que, em 1965 alguns bondes
ainda circulavam nas cidades de São Francisco, Pittsburgh, Boston e
outras localidades americanas, mas os carros eram do tipo mais modernos e
geralmente fechados. Naquele dia 7 de setembro de 1965, em Nova York, representantes
dos museus estavam no cais, ansiosos, observando os enormes guindastes Merrit-Chzpman
& Scott desembarcarem os treze bondes ao custo de US$ 2.500 cada um. Disse,
na ocasião, o representante do Museu Magee, da cidade de Orbisonia:
"Pelo que sei, são os últimos dos Moicanos. No mundo, não
existe mais este tipo de veículo.”
Fonte: A Formação das Estradas de Ferro no Rio de Janeiro – O Resgate da sua Memória – Autor: Helio Suevo Rodrigues
Breve história
do Hotel Santa Thereza
Da fundação
em 1859 à demolição em 2006
A
primeira notícia que se tem do Hotel Santa Thereza (também conhecido,
a partir de 1879, por Grande Hotel Santa Thereza) é do Almanak Laemmert
de 1859, este hotel é o primeiro a se estabelecer em Santa Teresa;
aparecia no almanaque com os seguintes endereços; em 1859, no Morro
de Santa Tereza, nº 26; em 1873, na rua do Aqueducto (atual Almirante
Alexandrino), nº 22; em 1876, nas páginas 48 e 50 e Junguilhos
(atual rua Felício dos Santos), n° 4; em 1880, nas páginas
48 a 54 e Junguilhos, nº 5; em 1889; nas páginas 66 e 68; em 1911,
nas páginas 176 e 184.
Em 1882, “O Grande Hotel Santa Thereza era um dos estabelecimentos que
já dispunham de linhas telefônicas para todos os pontos da cidade
e arrabaldes”. Constituía assim um dos grandes estabelecimentos
do período que anunciava “bom e grande estabelecimento, tendo
sempre salas e quartos mobiliados com elegância; com sala de bilhar
e piano a integrar suas dependências”, proclamava ainda “integrar
seus quadros, João José Torres e Carlos Ternite o primeiro antigo
chefe de cozinha do Paço Imperial, durante 32 anos e o segundo com
experiência adquirida ocupando o mesmo cargo nos principais hotéis
da Europa.”
O Hotel Santa Thereza após sua aquisição em 2004, pelo
grupo hoteleiro francês, Exclusive Hotels, teve a existência então
afetada pelos diversos afetos e interesses dos proprietários do imóvel,
da vizinhança, dos ex-moradores do Hotel e da Associação
de Moradores. Foi tombado no mesmo ano pelo prefeito, César Maia, que
declarou fazê-lo para preservar um patrimônio que pertencia à
história do bairro e de seus moradores.
Em março de 2006, começou a ser realizado o que foi chamado
pelo Departamento Geral de Patrimônio Cultural (DGPC) de desmonte do
prédio, o Hotel, para dar início ao projeto de restauração.
Ocorre que esta “desmontagem” tinha as características
de demolição. Isto foi denunciado incansavelmente pelo boletim
informativo De olho em Santa: o andamento da demolição do conjunto
arquitetônico do Hotel e o descaminho (a retirada acelerada do local)
do material original da construção (telhas, esquadrias, assoalho
e outros). Ao tempo desta denúncia, o DGPC respondeu por seu funcion´=ario,
o arquiteto Luiz Eduardo Pinheiro, do Departamento de Inventário e
Planejamento - DGPC/DIP. O arquiteto afirmou que “o Hotel Santa Tereza
NÃO SE ENCONTRA SENDO DEMOLIDO, como o senhor EQUIVOCADAMENTE está
informando às pessoas”. O funcionário referia-se à
denúncia feita pelo De Olho em Santa e a tachava de equivocada apesar
das fotografias atestadoras do estado da obra, e continuou “Acontece
que, para que as obras de restauração serem possíveis,
algumas partes tem que ser desmontadas”. O boletim continuava mostrando
em fotos a utilização das retro-escavadeiras. Em resposta ao
senhor Augusto Ivan, secretário de Urbanismo, que perguntava sobre
o que estava ocorrendo, o antes diretor do DGPC e hoje secretário do
Sedrepahc, André Zambelli respondia “Estamos acompanhando esse
assunto sim. O que o Joel (De Olho em Santa) não entende é que
está sendo demolida a construção que, apesar de fazer
parte do conjunto do Antigo Hotel Santa Teresa, é posterior ao prédio
principal e [está] em péssimo estado de conservação,
com risco estrutural.”
Uma foto apresentada pelo boletim do conjunto arquitetônico do Hotel,
de autoria de Juan Gutierrez, em 1892, demonstra claramente o tal prédio
anexo, considerado pelo órgão ou mesmo pelos atuais proprietários
como construção posterior, compunha na realidade o conjunto
arquitetônico original do Hotel.
Logo após esta constatação, o órgão responsável,
o Sedrepahc, veio a realizar o embargo depois de o conjunto já ser
irreversivelmente descaracterizado pela descuidada atuação dos
construtores e já quase totalmente demolido, sobrando apenas a fachada
lateral e pouco da área interna. O poder público enfim lavrou
um auto de infração e decretou o embargo; condicionou a liberação
da obra apenas após a emissão de um laudo técnico e a
apresentação do projeto de reconstrução do Hotel
com a contratação de profissional especializado em restauração.
Neste embargo e em depoimento ao jornal O Globo, o secretário do Sedrepahc,
André Zambelli, diz que “a empresa recebeu um auto de infração
pelo desrespeito e a obra permanecerá embargada até que seja
apresentada uma equipe de profissionais com capacidade para reconstruir tudo
que foi derrubado”. Na ocasião, ainda assegurou “O que
é importante para o patrimônio da cidade, certamente, será
reconstruído”. Respondendo ao secretário, a arquiteta
Alba Pires, gerente de implantação do Hotel Santa Tereza, “alegou
que as paredes de pau-a-pique estavam comprometidas e disse que o projeto
seria seguido à risca e as paredes reerguidas utilizando-se o mesmo
método da construção original”.
Ao que nos parece bastaram estes argumentos para quem em seguida fosse retirado
o embargo e a construção dita “reforma” do Hotel
continuasse sem atender qualquer dos critérios exigidos.
O histórico apresentado demonstra a total irresponsabilidade tanto
dos novos proprietários quanto do poder público na intenção
de preservação deste imóvel tombado; agora o que há
é a continuidade de um projeto inconseqüente e danoso ao nosso
patrimônio arquitetônico e histórico; inclusive danoso
à qualidade de vida e meio ambiente em Santa Teresa.
Consideramos, assim, a demolição do conjunto arquitetônico
do Hotel Santa Thereza uma afronta, um desrespeito, verdadeiramente um crime
contra o patrimônio histórico da cidade do Rio de Janeiro e mais
precisamente contra os moradores do bairro, por afetar diretamente nossa qualidade
de vida e ambiência social. O Hotel representava não só
um dos primeiros imóveis a ocupar o bairro de Santa Teresa; o primeiro
Hotel de Santa Thereza era o ultimo conjunto arquitetônico hoteleiro,
em atividade e preservado, da segunda metade do século XIX que restava
na cidade.
Referências bibliográficas:
- BELCHIOR, E.; POYARES, R. Pioneiros da hotelaria no Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro, SENAC, 1987.
- “Santa Teresa: a cidade na montanha”, em Bairros Cariocas, volume
2. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, Departamento
Geral de Documentação e Informação Cultural, Departamento
Geral de Patrimônio Cultural, 1990.
- Almanak Administrativo Mercantil e Industrial da Corte da província
do Rio de Janeiro para o ano de 1850 a 1909, o conhecido Almanak Laemert.